Quarta-feira, Abril 08, 2009

estou confuso

Ainda me lembro do dia em que tomei a trágica decisão de ser do benfica. Tinha dois dias e 8 horas de idade. Estava numa incubadora numa maternidade belga, nos arredores de Bruxelas. Era o único bebé com alguma melanina e cabelo. À minha volta, apenas larvas belgas côr-de-rosa aos berros. Eu, calmo, reflectia sobre a condição humana e as decisões que tinha de tomar. Seria de esquerda ou dos maus? Seria canhoto ou igual aos outros todos? Seria heterossexual ou uma menina assustada? Seria honesto ou político? Sobre tudo reflecti com calma, pesando os prós e os contras de cada decisão. Mas temo que me tenha precipitado na decisão de ser do Benfica. Aos 7 anos, quando se tornou claro para os outros humanos que eu era do Benfica porque parti alguma mobília (uma cadeira e uma pequena mesinha de apoio) quando perdemos 1-3 com o Liverpool, o meu pai, que era do Benfica e que me ensinava todo o léxico associado ao futebol (filhos da puta não jogam nada, foda-se caralho como é que falhou este golo, cabrão do àrbitro etc.) disse-me com ar preocupado: «como é que foste ser do Benfica? eu nunca fiz nada para isso». Nunca fez, é verdade. Em muitos erros pedagógicos (como o dia em que fiz 8 anos e me ensinou a carregar a caçadeira e onde estavam os cartuchos) esse nunca foi um deles. Pelo contrário. O meu pai sempre fez um esforço para demonstrar distanciação face ao futebol, disfarçando muito mal o facto de ficar doente com as derrotas do Benfica. Mesmo as vitórias do Benfica pareciam apenas um esforço deste para mostrar ao meu pai que não era tão mau como ele pensava, como quando um aluno que chumba constantemente mostra ao pai que teve um 11 a Econometria 2 e lá se safou. Nunca me vou esquecer do glorioso 3-6 em Alvalade, em que o João Pinto marcou 3 golos. Eu não vi esse jogo porque o meu pai desligou a televisão e proibiu-me de ver o resto do jogo quando o Benfica estava a perder. Ouvi o resto na rádio. Nunca lhe perdoei isso. Dali para a frente o meu pai tornou-se o motivo pelo qual o Benfica perdia ou jogava mal. Eu estava a ver o jogo, o meu pai entrava na sala, olhava para a televisão, e o Benfica sofria um golo. E mal se ia embora, o Benfica marcava. Sempre. Talvez isto tenha acontecido apenas uma vez, mas para mim era sempre. Às tantas, acho que o convenci que era verdade, talvez ele próprio já desconfiasse disso. Aliás, estava o meu pai já moribundo e eu dizia-lhe "nunca te perdoarei não me teres deixado ver o golo do Isaías em que ele fez os corninhos depois" e ele "desculpa filho..." e eu "mas percebo... tentaste proteger-me... tu sabias pai..." etc. Parecia aquela cena do Magnolia. Se eu tivesse escolhido ser do FCP a vida era mais fácil. Teria uma pronúncia estúpida mas ouviria canções dos GNR sobre isso ao ponto de achar que era uma idiossincrasia interessante. Comia tripas e francesinhas ao pequeno almoço. O mundo seria um lugar muito mais simples e definido. Teria um retrato 2 em 1 na parede: Jorge Nuno Pinto da Costa a beijar a mão do Papa, ao lado de uma Nossa Senhora De Fátima de porcelana com um equipamento do FCP patrocínio Revigrés. Cada vez que fosse de viagem ao sul, rebentava com as estações de serviço. Pelo menos, com as casas de banho. No incêndio do Chiado, em vez de ficar triste e assustado (estava em Lisboa nesse dia), sacava de uma lira e trepava a um muro em ruínas, com as chamas em pano de fundo. Teria menos um motivo para antipatizar com o Francisco José Viegas e com aquele gordo dos texteis que aparecia na SIC naquele programa que tinha o Miguel Esteves Cardoso, a "noite da má língua". Seria mais amigo do Sporting e dos sportinguistas, porque não os via como rivais, mas sim como aqueles tipos simpáticos e educados, com defeitos na fala devido ao inbreeding característico dos betos. Teria um motivo real para ser sócio e ver jogos, em vez de racionalizar a enorme vantagem que é ter desconto de 6 cêntimos por litro na Repsol até final de Junho. Não precisaria dos outros clubes para ver jogos na champions. Não sentiria um misto de vergonha e humilhação por festejar um golo do Benfica a 2 minutos do fim contra o Manchester. Não sentiria porque o Benfica não estaria lá para o marcar. Estaria lá o meu Porto. Gostaria mais de azul do que de vermelho. Teria um bigode e uma mulher com bigode também e filhos com bigode e gatos e cães com bigode, e todos a ladrar e a miar com aquela pronúncia estúpida. Via o Redbull Air Race e votava no Rio Rio e espancaria pessoas da cultura que pusessem em causa aquela corrida de automóveis antigos, mas elogiaria muito a Casa da Música. Viveria numa cidade com cafés decentes e pedia cimbalinos e natas. E podia odiar o Benfica. Meu Deus. Este sim era o clímax de tudo. Poder odiar o Benfica em todo o seu esplendor. Poder gozar com o Benfica. Poder ver o Benfica como ele é realmente e não como a minha mente mutilada o vê. Poder dizer de consciência tranquila "talvez o Mantorras não valha 10 milhões" ou "é possível que o Benfica esteja a ser mal gerido" ou "este ano se calhar não ganhamos a champions". Poder rir-me do Benfica sem qualquer culpa. O Benfica dar-me-ia alegrias. Seria essa a grande diferença. Sim. Neste momento, está tudo ao contrário, tudo trocado, o que devia ser bom é mau e o que devia ser mau é bom. Estou confuso. Só sei que pelo menos não sou do Sporting.

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3 Comments:

Blogger Pintulis said...

Que maravilha de post. Parabéns!

Sinto exactamente o mesmo. É triste, mas melhores dias virão. Só podem.

11:45 AM  
Anonymous Pensamento rebelde said...

Este tá giro!

1:30 PM  
Anonymous TiagoTD said...

pois, eu sei o que queres dizer... domingo após domingo me encaminho para o meu cativo na central... mal consigo exprimir o meu sentimento...

9:41 AM  

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