Quinta-feira, Junho 12, 2008

escrita de humor

Depois do magnífico e ainda não-digerido Demónios de Dostoiévski, atirei-me ao Gun Seller de Hugh Laurie (o doctor House) que entretanto já terminei. Não é mau, no segmento "livro de aeroporto" não está nada mal. A escrita está uns quantos furos acima da norma. É um livro humorístico mainstream, do género Douglas Adams. Uma história de espionagem e conspiração internacional, contada de forma muito cómica. Mas, mais uma vez, é notório como o humor é dificil de tratar de forma literária, ainda mais na forma de romance. O problema deste tipo de escrita é que os livros vão piorando do princípio para o fim, na maior parte dos casos, ou pelo menos, deixam de ser cómicos e passam a ser dramáticos. Dom Quixote de Cervantes é um grande exemplo, toda gente refere a 2ª parte como a melhor, tudo bem, é a mais triste e dramática, mas a primeira parte é que tem todos os arquétipos loucos da personagem Dom Quixote, incluindo a célebre incursão contra os moínhos. Gogol também atingiu o auge no primeiro volume do Almas Mortas, o único que era declaradamente satírico, não conseguindo realmente terminar os outros 2 volumes que estavam previstos e que seriam uma espécie de redenção. O efeito "euforia" esmorece à medida que o autor fica manietado pela trama que construiu e pela obrigação de a continuar e de aturar aquelas personagens. Isto é notório não só na escrita, mas também no cinema, nas comédias longa metragem (Mel Brooks é o pior exemplo, inícios geniais, finais torturantes).
A única forma de dar a volta à coisa é manter a obra com uma dimensão muito reduzida no formato de contos ou mini romances Salinger, Houelebeq) ou dar-lhe um universo absurdo onde vale tudo e não há uma estrutura narrativa linear (Becket na literatura, Monthy Pyton no cinema). Também já passei pela sensação de euforia de criar blogues anónimos com personagens, mas depois de umas semanas, ou meses, uma pessoa farta-se. Também se sente com as pessoas, umas com as outras. Estamos com uns amigos, rimo-nos muito, mas se fossemos obrigados a estar mais de 30 minutos com eles, ficávamos fartos. Eu não tenho muitos amigos.

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