Arcade Fire - crítica ao concerto e meditação
Nota prévia: adoro os Arcade Fire e o Funeral foi a coisa que eu mais ouvi nos últimos dois anos, e gosto muito do Neon Bible. Mas ontem, tive receio de ser velhote ao perceber que o concerto me estava a passar relativamente ao lado, apesar de estar a 20 metros do palco. O Superbock não ajuda. É um festival com uma atmosfera algo fria e desolada. O vento é sempre muito forte e dispersa o som mesmo a 20 metros do palco.
sobre os próprios Arcade Fire ao vivo...
Os Arcade Fire têm mística mas os elementos não. É daqueles casos em que o colectivo vale mais que a soma das individualidades, para usar uma terminologia futeboleira.
Os Arcade Fire tocam como uma parede emotiva galopante e adolescente, sem se ouvirem uns aos outros. É fantástico em disco, as músicas são muito boas e todas consistentes, mas ao vivo as canções dos Arcade Fire adquirem todas a tonalidade de hinos. O concerto torna-se relativamente previsível: uma consagração constante em tonalidade de catarse muito querida ao público português. No caso dos arcade fire digo-o sem cinismo, mas já assisti exactamente à mesma devoção incondicional por inanidades como Guano Apes.
A catarse já me diz muito pouco ao vivo, pelos vistos. Ontem não houve nenhum momento semelhante aquele em que Tom Yorke (Radiohed) inicia o Karma Police ao piano, rompendo o silêncio num coliseu suspenso. E não vi uma banda com 1/10 da pujança dos Strokes, apesar do aparato ser 10 vezes maior.
Os Arcade Fire tocam camadas muito simples que se sobrepõem de forma rígida para formar um som complexo e basta um falhar para o edifício todo ruir. Não gerem bem o espartilho da profusão de instrumentos e o concerto não teve momentos de risco, quanto mais de virtuosismo instrumental e improvisação. Não há maestro naquela banda e todos os músicos têm um medo terrível de serem expostos ao silêncio. É na corda bamba do silêncio e da tensão que se joga a verdadeira essência da emoção da música ao vivo para mim, hoje. Não na catarse.
Não basta escolher e usar instrumentos improváveis ou arcaicos como orgãos de sopro e acordeons, e atirar tambores e pandeiretas ao ar para entusiasmar. Os membros dos Arcade Fire não são grandes músicos e nunca o pretenderam ser ainda. São genuínos de uma forma desarmante e jogam muito com essa autenticidade e com uma personalidade de banda especial, mas não tão original como isso - dEUS e God Speed You Black Emperor. Essa autencidade confunde os sentidos e apaixona-nos, mas há algo de muito superficial e fugaz nessa relação.
Quando vejo uma grande banda ao vivo, sou mais facilmente remetidos para contemplação do que para a participação. Se os músicos forem mesmo bons, vão ter curiosidade por aquilo que vai sair deles na próxima música, às vezes mais do que o público, mais do que eu. Às vezes esquecem-se de mim e tudo, menos nos intervalos das músicas. Os Arcade Fire nunca esquecem o público para se concentrar na música.
O futuro dos Arcade Fire está numa maior exploração das potencialidades de coisas simples como instrumentos clássicos (guitarra, piano), um som mais descarnado, minimalista e forte, sobre o qual se podem depositar, com moderação as tais camadas, até porque Win Butler, o vocalista, tem já as bases ecléticas para o fazer (toca baixo, orgão, guitarra), uma belíssima voz e uma presença muito grande. Além disso, fazem grandes melodias, que podem vir a perder por excesso de produção. A minha faixa preferida do Neon Bible é o Ocean of Noise que, apesar do título, é a que joga melhor com o silêncio e com a utilização do aparato sinfónico no último 1/4 da música para criar efeitos dramáticos (e não anestesiantes).
Quanto ao resto... Os Bloc Party são mesmo bons, mas pareceram-me ter um reportório curto e de altos e baixos. Os Klaxons são aborrecidos e poseurs.
Os herois foram os Arcade Fire, sem dúvida, mas músicos da noite foram, para além de Kele Okereke dos Bloc Party, os discretos e simpáticos The Magic Numbers. Deixo aqui uma música:
Forever lost. Chegaram lá de pantufas, na boa e por todo lado as orelhas espetavam-se num "o que é isto?" simpático.
sobre os próprios Arcade Fire ao vivo...
Os Arcade Fire têm mística mas os elementos não. É daqueles casos em que o colectivo vale mais que a soma das individualidades, para usar uma terminologia futeboleira.
Os Arcade Fire tocam como uma parede emotiva galopante e adolescente, sem se ouvirem uns aos outros. É fantástico em disco, as músicas são muito boas e todas consistentes, mas ao vivo as canções dos Arcade Fire adquirem todas a tonalidade de hinos. O concerto torna-se relativamente previsível: uma consagração constante em tonalidade de catarse muito querida ao público português. No caso dos arcade fire digo-o sem cinismo, mas já assisti exactamente à mesma devoção incondicional por inanidades como Guano Apes.
A catarse já me diz muito pouco ao vivo, pelos vistos. Ontem não houve nenhum momento semelhante aquele em que Tom Yorke (Radiohed) inicia o Karma Police ao piano, rompendo o silêncio num coliseu suspenso. E não vi uma banda com 1/10 da pujança dos Strokes, apesar do aparato ser 10 vezes maior.
Os Arcade Fire tocam camadas muito simples que se sobrepõem de forma rígida para formar um som complexo e basta um falhar para o edifício todo ruir. Não gerem bem o espartilho da profusão de instrumentos e o concerto não teve momentos de risco, quanto mais de virtuosismo instrumental e improvisação. Não há maestro naquela banda e todos os músicos têm um medo terrível de serem expostos ao silêncio. É na corda bamba do silêncio e da tensão que se joga a verdadeira essência da emoção da música ao vivo para mim, hoje. Não na catarse.
Não basta escolher e usar instrumentos improváveis ou arcaicos como orgãos de sopro e acordeons, e atirar tambores e pandeiretas ao ar para entusiasmar. Os membros dos Arcade Fire não são grandes músicos e nunca o pretenderam ser ainda. São genuínos de uma forma desarmante e jogam muito com essa autenticidade e com uma personalidade de banda especial, mas não tão original como isso - dEUS e God Speed You Black Emperor. Essa autencidade confunde os sentidos e apaixona-nos, mas há algo de muito superficial e fugaz nessa relação.
Quando vejo uma grande banda ao vivo, sou mais facilmente remetidos para contemplação do que para a participação. Se os músicos forem mesmo bons, vão ter curiosidade por aquilo que vai sair deles na próxima música, às vezes mais do que o público, mais do que eu. Às vezes esquecem-se de mim e tudo, menos nos intervalos das músicas. Os Arcade Fire nunca esquecem o público para se concentrar na música.
O futuro dos Arcade Fire está numa maior exploração das potencialidades de coisas simples como instrumentos clássicos (guitarra, piano), um som mais descarnado, minimalista e forte, sobre o qual se podem depositar, com moderação as tais camadas, até porque Win Butler, o vocalista, tem já as bases ecléticas para o fazer (toca baixo, orgão, guitarra), uma belíssima voz e uma presença muito grande. Além disso, fazem grandes melodias, que podem vir a perder por excesso de produção. A minha faixa preferida do Neon Bible é o Ocean of Noise que, apesar do título, é a que joga melhor com o silêncio e com a utilização do aparato sinfónico no último 1/4 da música para criar efeitos dramáticos (e não anestesiantes).
Quanto ao resto... Os Bloc Party são mesmo bons, mas pareceram-me ter um reportório curto e de altos e baixos. Os Klaxons são aborrecidos e poseurs.
Os herois foram os Arcade Fire, sem dúvida, mas músicos da noite foram, para além de Kele Okereke dos Bloc Party, os discretos e simpáticos The Magic Numbers. Deixo aqui uma música:
Forever lost. Chegaram lá de pantufas, na boa e por todo lado as orelhas espetavam-se num "o que é isto?" simpático.
Etiquetas: músicas


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