sem professor
Apercebo-me com amargura que na escrita sou como um aluno sem professor. É curioso como tive tantos professores para tanta coisa que não estive disposto a aprender, e logo nesta, não tenho. Mas encontro em entrevistas a escritores coisas preciosas e a minha imaginação faz o resto.
Por exemplo, o Lobo Antunes disse ao DN:
"A gente põe as tripas cá para fora, senão, de outra maneira, não cola. A gente está sempre a abrir as tripas. Se não se sente isso, falhei um livro, o que é uma coisa apavorante, porque uma pessoa investe tanto numa história..." e disse:
"(...) procura desesperada e impaciente de uma maneira pessoal e dizer as coisas, porque para escrever livros é preciso negar todos os outros escritores, evitar o «está-me a soar a», ou, o que é ainda mais grave, «isto está-me a soar a mim próprio», que é quando a gente se começa a repetir. Como dizia há tempos o Antonio Tabucchi(...), «com a idade há dois perigos para quem escreve, que são a hipertrofia do eu e a hipertrofia da próstata, e a hipertrofia do eu é muito mais mortal»."
in Visão, 26 de Setembro de 1996
Por exemplo, o Lobo Antunes disse ao DN:
"A gente põe as tripas cá para fora, senão, de outra maneira, não cola. A gente está sempre a abrir as tripas. Se não se sente isso, falhei um livro, o que é uma coisa apavorante, porque uma pessoa investe tanto numa história..." e disse:
"(...) procura desesperada e impaciente de uma maneira pessoal e dizer as coisas, porque para escrever livros é preciso negar todos os outros escritores, evitar o «está-me a soar a», ou, o que é ainda mais grave, «isto está-me a soar a mim próprio», que é quando a gente se começa a repetir. Como dizia há tempos o Antonio Tabucchi(...), «com a idade há dois perigos para quem escreve, que são a hipertrofia do eu e a hipertrofia da próstata, e a hipertrofia do eu é muito mais mortal»."
in Visão, 26 de Setembro de 1996
Pronto, imagino que vou ter explicação com o Lobo Antunes ao bar Viking do Cais do Sodré. Ele precisava de uns trocos e meteu um anúncio no jornal "Explicações de escrita - Boas referências."
Cheguei um pouco atrasado e ele está sentado a olhar para a Vanessa, uma stripper um pouco decadente e gorducha. O bar está quase vazio, talvez culpa da Vanessa. Sento-me ao lado dele, com as minhas notas e rascunhos, e ele nem me vê chegar, mas não o interrompo porque sei que ele conhece esta Vanessa e que ela de dia é lojista na amadora. Espero que o show acabe, ligam a televisão gigante que há a um canto, está a dar um big show sic na SIC Gold .
Finalmente o Lobo Antunes olha para mim e estende-me um cigarro. Volto a dizer-lhe, pela 123ª vez que deixei de fumar. Pergunto-lhe se ele leu o meu rascunho dos primeiros capítulos e o que ele achou. O Lobo Antunes encosta-se na cadeira, baloiça para trás, os olhos no tecto cheio de nódoas. E depois diz-me «Miguel, acho que o teu livro é francamente bom, gostei muito, é preciso tomates para pegares no tema da homossexualidade, da tourada e do gel de duche com aloé vera, assim sem rodeios...» Interrompo-o, digo-lhe que eu sou o Lourenço, e que o meu livro não fala dessas coisas. Ele desculpa-se, fez confusão. E depois diz-me. «Ah, pois... o Lourenço... epá... A gente têm de por as tripas cá para fora Lourenço, senão, de outra maneira, não cola. Isto não cola. Está uma merda. Tens de estar sempre a abrir as tripas. Se não se sente isso, falhaste o livro, o que é uma coisa apavorante, porque vejo que andas aí a trabalhar nele há meses e mete-me pena... Olha aprende com a Vanessa. Já
viste? Tem mais banhas que um hipopótamo e tem as mamas descaídas, mas despe-se cheia de confiança e por isso é que é interessante.. Eu observo que fiz um esforço para mudar e até me inspirei no Fado Alexandrino, já me disseram que pareço um boris vian e aqui ele interrompe-me: «Tu tens de procurar desesperada e impacientemente uma maneira pessoal de dizer as coisas, porque para escrever livros é preciso negar todos os outros escritores, evitar o «está-me a soar a», ou, o que é ainda mais grave, o «isto está-me a soar a mim próprio», que é quando a gente se começa a repetir. A Vanessa tem mais estilo próprio do que tu.»
Mas infelizmente, nada disto se passou.
Finalmente o Lobo Antunes olha para mim e estende-me um cigarro. Volto a dizer-lhe, pela 123ª vez que deixei de fumar. Pergunto-lhe se ele leu o meu rascunho dos primeiros capítulos e o que ele achou. O Lobo Antunes encosta-se na cadeira, baloiça para trás, os olhos no tecto cheio de nódoas. E depois diz-me «Miguel, acho que o teu livro é francamente bom, gostei muito, é preciso tomates para pegares no tema da homossexualidade, da tourada e do gel de duche com aloé vera, assim sem rodeios...» Interrompo-o, digo-lhe que eu sou o Lourenço, e que o meu livro não fala dessas coisas. Ele desculpa-se, fez confusão. E depois diz-me. «Ah, pois... o Lourenço... epá... A gente têm de por as tripas cá para fora Lourenço, senão, de outra maneira, não cola. Isto não cola. Está uma merda. Tens de estar sempre a abrir as tripas. Se não se sente isso, falhaste o livro, o que é uma coisa apavorante, porque vejo que andas aí a trabalhar nele há meses e mete-me pena... Olha aprende com a Vanessa. Já
viste? Tem mais banhas que um hipopótamo e tem as mamas descaídas, mas despe-se cheia de confiança e por isso é que é interessante.. Eu observo que fiz um esforço para mudar e até me inspirei no Fado Alexandrino, já me disseram que pareço um boris vian e aqui ele interrompe-me: «Tu tens de procurar desesperada e impacientemente uma maneira pessoal de dizer as coisas, porque para escrever livros é preciso negar todos os outros escritores, evitar o «está-me a soar a», ou, o que é ainda mais grave, o «isto está-me a soar a mim próprio», que é quando a gente se começa a repetir. A Vanessa tem mais estilo próprio do que tu.»
Mas infelizmente, nada disto se passou.


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