Huysmans - Além (7/10)
O livro esmorece um pouco depois dos primeiros 2/3, talvez antes. Foi um grande best-seller em 1893 e percebe-se porquê, tem tudo para o ser: sexo, violência, crime, sexo, satanismo, igreja católica, sexo e sexo e, não sei se já disse, igreja. E começa muito bem, a tal ponto que devoramos as primeiras 200 páginas. Deste não fariam um filme de Hollywood, este tinha de ser o Pasolini a realizá-lo e posso garantir-vos que o próprio Pasolini pensaria duas vezes antes de filmar certas cenas. Algumas passagens, pela extrema crueldade e escatologia descritas com frieza, deixaram-me fisicamente doente, o que até agora era um exclusivo dos editoriais do Luís Delgado ou do José Júdice. Ficar fisicamente doente, enjoado, não é um efeito agradável na leitura mas há pessoas que pagam bilhete para ficar assim na montanha russa ou no saltamontes das feiras, por isso, tenho para mim que o leitor é uma criatura masoquista. Eu que o diga que volta e meia lá leio com o credo na boca, um ou outro parágrafo de Luís Delgado.
O problema do "Além" do Huysmans é que está demasiado "datado" pelo (des)conhecimento científico da época, exactamente o mesmo que sucede ao MobyDick de Melville ou ao Dracula de Bram Stoker. Por exemplo, Huysmans quer tornar misteriosa e não totalmente de rejeitar a hipótese de se poderem enviar maldições por espíritos invisíveis, feitiços, macumbas. Perante um céptico compara isso com a crença da ciência nos "micróbios" que também são invisíveis e andam pelo ar. Se isto fosse subtil escapava; o problema é que para construir esta aura de mistério os exemplos apresentados são demasiado infantis comparados com o saber dos nossos dias e até do final do sec XIX. Não se compreende, visto que em 1893 já existiam microscópios. Aliás os mircro-organismos foram estudados de forma detalhada por Robert Hooke no século XVII e o Fleming, por esta altura, até já tinha descoberto a penicilina. Isto pode parecer irrelevante mas não é, porque transmite logo ao leitor a sensação que o estão a tentar empurrar deliberadamente numa direcção.
O problema do "Além" do Huysmans é que está demasiado "datado" pelo (des)conhecimento científico da época, exactamente o mesmo que sucede ao MobyDick de Melville ou ao Dracula de Bram Stoker. Por exemplo, Huysmans quer tornar misteriosa e não totalmente de rejeitar a hipótese de se poderem enviar maldições por espíritos invisíveis, feitiços, macumbas. Perante um céptico compara isso com a crença da ciência nos "micróbios" que também são invisíveis e andam pelo ar. Se isto fosse subtil escapava; o problema é que para construir esta aura de mistério os exemplos apresentados são demasiado infantis comparados com o saber dos nossos dias e até do final do sec XIX. Não se compreende, visto que em 1893 já existiam microscópios. Aliás os mircro-organismos foram estudados de forma detalhada por Robert Hooke no século XVII e o Fleming, por esta altura, até já tinha descoberto a penicilina. Isto pode parecer irrelevante mas não é, porque transmite logo ao leitor a sensação que o estão a tentar empurrar deliberadamente numa direcção.
Estas cenas de satanismo ou espiritismo são muito diferentes daquilo que se vê, por exemplo, na personagem do cabalista do magnífico Idiota de Dostoievski, ou nas sessões de espiritismo a que o Hans Castorp assiste no sanatório da Montanha Mágica de Thomas Mann. São as duas muito diferentes mas ambas exploram um "desconhecido" com à vontade, sem necessidade de justificação, o que só acentua o mistério. O cabalista aplica à rede caminhos de ferro o mesmo raciocínio premonitório de globalização que hoje podemos aplicar à rede de Internet. Ora no Além sentimos que o ponto de vista das duas personagens principais (Durat e De Hermies) são coincidentes, como se fossem Dupond e Dupont. Um diz mata, o outro diz esfola. Não existe um adversário convincente e o que Huysmans faz é basear a argumentação num rol de factos, de nomes, de datas, que um leitor no sec XXI não tem possibilidade, ou interesse, em confirmar. Mas eu não sou um leitor normal (ver post abaixo) e tentei confirmar alguns para o lixar. A personagem principal, o escritor Durat, está a fazer pesquisa sobre o monstro pedófilo serial killer Gilles de Rais, um nobre que combateu ao lado de Jeanne D'Arc e que depois terá assassinado, segundo este livro, mais de 800 crianças em rituais satânicos. Peguei por aqui porque 800 me pareceu muito exagerado e de facto todas as fontes na Internet apontam para 80 a 200 crianças. É muito, é um facto inquestionável, é mais do que qualquer Charles Manson ou Jack Estripador, é algo que ultrapassa as proporções do imaginável mas pelos vistos aconteceu mesmo na idade média, com a cobertura do Rei e de parte do clero. É tão monstruoso que a própria França não faz apanágio disto, ao contrário da Inglaterra com o seu Jack The Ripper. Eu confesso que é a primeira vez que oiço falar neste Gilles De Rais. Mas então porque deturpar os factos e dizer que foram "mais de 800" quando o próprio Gilles de Rais confessou 180 em tribunal e assim ficou registado e provado. Ora, podemos admitir que em 1893 nenhum leitor poderia fazer um search no Google, como eu fiz agora, e confrontar estes factos, e que por isso o Huysmans poderia ter rédea solta para exagerar. Mas não é isso. E basta olhar para Dan Brown para perceber que efectivamente, ao leitor normal, estes factos passam como "possíveis", da mesma forma que os chain-mails de spam a avisar para os raptos e roubo de órgãos são reenviados porque "nunca se sabe". O livro “Além” é interessante enquanto constrói as personagens, agarra logo na primeira página como qualquer best-seller mas depois vai esmorecendo, é nítido que o escritor não consegue resolver a armadilha que ele próprio tramou. O ponto alto são realmente as descrições das prática satânicas do Marechal Gilles, que vão muito para além de tudo o que eu tenho lido, com requintes de crueldade que ultrapassam um qualquer Hanibal Lector de meia tigela, ou um livro do Brett Easton Ellis, ou mesmo um editorial de Luís Delgado. É um bom livro, sem dúvida, mas o Huysmans não entra para já no panteão do Nascer do Sol. Terei de ler o seu “À Rebours”, considerada a sua obra prima. A ver vamos.


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