Conto: A morte de Gonçalo 'Tommy'
No meio da consultoria a imagem é muito importante e a de Gonçalo 'Tommy' Gomes estava irremediavelmente manchada por crimes que nada tinham que ver com admissíveis acusações de adulteração de resultados de contas ou fuga aos impostos, actividades essas que até enobrecem o consultor que se preze pois demonstram uma atitude combativa e feroz. Gonçalo viu-se assim, de um dia para o outro, desempregado, gastando os poucos tostões que tinha amealhado em bons advogados, sem dinheiro para fazer face ao elevado nível de endividamento contraído quando a carreira e o ordenado pareciam no raiar do crescimento exponencial prometido no contrato de fidelidade com a Consultora.
O carro e a casa tinham sido já penhorados. Apesar das suas elevadas qualificações académicas, das quais se destacava um MBA, e da intensiva formação profissional a que fora sujeito, Gonçalo não se conseguia ver noutra ocupação que não a de consultoria. Qualquer outra profissão normal para as suas qualificações obrigaria ao desenvolvimento de relações estáveis com a entidade empregadora, os colegas, clientes, cidade e país de residência. O bem bom da ocupação de consultoria é a eterna mudança, o trabalhar com novos colegas todos os trimestres, em novos empregos, em novas cidades e países, para novos clientes, falando sempre inglês, nunca correndo o risco de ficar tempo demais no mesmo sítio para se arriscar a sofrer os efeitos dos erros e excessos naturais da actividade de consultoria, como a arrogância, os estrangeirismos, a máscara exterior de riqueza, o endividamento exponencial. Esses aspectos eram simplesmente incompatíveis com uma vida ancorada.
As próprias relações sentimentais estavam castradas à partida e resumiam-se, na melhor das hipóteses, a uma fidelização de uma prostituta de uma casa de luxo.
A mudança de vida não fora assim tão dramática para Gonçalo Tommy. É certo que de um dia para o outro deixou de poder pagar as prestações do Z3, da casa do Restelo e dos fatos Hugo Boss. Em menos de um mês Gonçalo juntou-se aos sem abrigos de Santa Apolónia que o acolheram com a razoável indifirença que eles próprios esperam para si mesmos e nesse aspecto pouco mudou na sua vida face ao meio da consultoria. Ainda era um nómada e não tinha amigos. Restos de sushi no caixote do lixo da Bica do Sapato sabem ao mesmo que no elegante tabuleiro japonês do sushi bar. Deambulava pelas ruas agitadas do terminal ferrovário, ainda vestindo o seu melhor fato Hugo Boss, semi-desfeito pelas noites dormidas ao relento e forrado a jornais com as notícias de um mundo que nada queria saber dele.
E um homem de quem o mundo nada quer saber e também nada exige é quase invulnerável.
Todos os dias, quando o Sol ia alto, Gonçalo juntava-se aos sem abrigo para se aquecer perto das palmeiras desnudadas da borda do Tejo, observando placidamente os ucranianos à pesca e os cargueiros ferrugentos vindos de paragens suspeitas. De quando em vez parava um paquete. O Queen Mary, o Queen Elisabeth, o Paquete Funchal, o Ocean Queen. Gonçalo Tommy conhecia-os todos. Conhecia os procedimentos. O aparato montado no cais já deixava antever a chegada de um navio. De súbito, os sem abrigo e pescadores ucranianos ficavam privados da margem do rio por assertivas grades de metal em torno do cais de desembarque. Dezenas de autocarros luxuosos saíam de debaixo da terra como insectos em carreira para Santa Apolónia, bloqueando o trânsito local. Polícia e guarda marítima tornavam-se pouco condescendentes para com os hábitos dos pescadores de taínha e dos reformados que, sabe-se lá porquê, encontram distracção no passar das águas do rio. Os paquetes aproximavam-se vagarosamente, como edifícios fantasma, normalmente pela manhã muito cedo, guiados por um experiente rebocador. Desde muito longe que se podia ouvir a potente voz nos megafones do navio alertando em inglês para a abordagem a Lisboa, mais uma de muitas escalas no roteiro Ladies and Gentlemen we are now boarding in Lisbon. We request that you head for the restaurant were breakfast will be served. Aftwerwards we will take you on a tour through Lisbon”
A sirene do navio soava omnipotente com a buzina de um grande mamute que quer arranjar espaço para se deitar. As amarras, pesadíssimas, da largura de um tronco, eram atiradas para o cais de betão e atadas por um só experiente funcionário do porto de Lisboa em torno dos pilares de ferro ferrugentos.
E Gonçalo Tommy, forrado a Independente e Expresso, suspirava pelos tempos em que podia ter viajado num paquete daqueles. Agora tinha de se desviar e acatar as ordens de encerramento do cais para descida dos passageiros, no geral idosos ricos americanos e japoneses que não chegavam a pisar terra portuguesa pois eram imediatamente empacotados nos luxuosos autocarros e condenados a passar o dia ouvindo os guias femininos de microfone na mão que os levavam em tours pré-formatados por Lisboa. Gonçalo observava como os autocarros se demoravam perante coisas tão insignificantes como a casa do fado, o museu do exército, um bebedouro para animais ou a casa dos bicos e deduzia que os guias aplicavam aqueles edifícios os mesmos textos que para os principais monumentos de Lisboa, talvez com pequenas adaptações realistas, para poupar tempo. Talvez não seja assim tão grande a grande diferença entre o aspecto geral de Alfama e o mosteiro dos Jerónimos. Era o que Gonçalo faria, vícios da profissão de consultor que custavam a sair.
Aliás, como consultor sem abrigo que era, Gonçalo não deixava de opinar sobre tudo e sobre tudo desenvolvera teorias. A distribuição de comida pelo exército de salvação era ineficiente e depressa Gonçalo tratou de recomendar aos monges budistas que concentrassem as duas filas numa só e que cada um dos dois monges se especializasse numa tarefa. Um dos monges passou a limitar-se a encher os pratos e o outro a estendê-los aos sem abrigo.
Ao lado da estação construíam uma estação de metropolitano e Gonçalo não perdia uma oportunidade de atirar umas opiniões empoleirado na cerca das obras. Era da sua profunda convicçao que o atraso das obras do túnel do Paço se devera à indiferença com que os engenheiros das obras recebiam os seus conselhos.
Mesmo na arte de arrumar carros, Gonçalo era exímio em extorquir o máximo de dinheiro no mínimo de tempo. Distribuía os arrumadores por sectores bem definidos. Depois explicava que o arrumador não se devia acercar do condutor com a mão estendida mas sim fingir que não estava interessado na moeda. Também explicava que um look descuidado era importante pois criava a ilusão de que o arrumador riscaria certamente o automóvel caso não fosse ressarcido do serviço.
Gonçalo adorava a sua nova existência livre de impostos, vagabundo liberal.
Cantava para consigo a a cantiga que todos os sem abrigo de Lisboa entoam para manter os espíritos unidos e fortes:
Não tenho BI
ou carta de condução
tenho-te a ti oh Sol de Verão
Sem número fiscal ou código postal
olá liberdade adeus Portugal
sem ter de entregar
O IRS
fazemos aquilo
que nos apetece
Ter contas do gás
e da água e da luz
ter uma carteira
e onde é que a pus?
a vida com bens
é uma prisão
ter um carro e levá-lo
à inspecção
e sofrer
com a inflação
Não tenho BI
ou carta de condução
tenho-te a ti oh Sol de Verão
E assim ficava Gonçalo, os dias placidamente estendido nas escadarias da estação de comboios de Santa Apolónia, sempre em permanente migração como a sombra de um relógio de Sol, ao contrário no inverno. De manhã deixava-se ficar no lado Norte do terminal, na rua dos caminhos de ferro, para receber o fresco da madrugada e a escuridão que ajudava a dormir. Depois levantava-se deslocava-se para a beira do rio para se bronzear, amaldiçoando as fortunas que gastara em solários. Naquele dia foi barrado pelas grades que tinham colocado de noite em torno do cais.
Um enorme iate de luxo encontrava-se ancorado e barrado por seguranças de fato e auricular. Lembrou-se imediatamente de Abramovitch e a sua pequena esquadra que em tempos idos ali acostou para negociar Mourinho. Mas não, este barco era de outra estirpe. Um gigantesco Benetti de 80 metros. Luxo do bom. Gonçalo reconheceu-o da última edição da Iate&Vela que roubou no quiosque.
Esperou calmamente junto à estação que alguém jogasse fora um jornal do dia anterior para lhe ler avidamente a informação financeira. Depois, como fazia sempre que tinha informação financeira, ia a correr e sentava-se no meio dos outros vagabundos para lhes ler as notícias em voz alta. Estes já tinham vindo progessivamente a ganhar atenção pela evolução do PSI 20 e da cotação Euro-Dólar e prestavam tanta atenção áquilo como a qualquer outra notícia.
— Olha.... cá está, o Euro continua a valorizar-se. Está ouvir oh Kalumba?
Kalumba era o velho negro que se limitava a deixar pendurado o grande beiço numa expressão de apatia mortiça. Um tetrapack de uva do monte era a sua âncora. Nunca usava os grandes beiços para falar, só para envolver o tetrapack inteiro, como um coco. Mesmo assim rondava sempre perto das outras pessoas como que para lhes captar a existência que a ele faltava. Foi Manecas, o esquizofrénico que ouvia vozes, que lhe respondeu.
— Mas oh Gonçalo... o que é que isso, onde? Onde? Já vai! O que é que isso quer dizer para nós?
— Então Manecas, isto significa que tá mau para o turismo pá. Overvaluating percebes? O euro vale mais por isso os europeus vão passar férias lá fora onde o seu dinheiro vale mais. Tipo, Brasil, está a perceber? E vêm menos estrangeiros para cá. É mau para o turismo.
— Mas oh Gonçalo... Esperem, estou a falar com ele! O que é que issoo quer dizer para nós?
— Menos turistas em Lisboa é sempre mau para os sem abrigo. — e dito isto calou-se, esticou o jornal e mergulhou absorto na leitura.
Uma gaivota passeava ao longo do cais. Um colorido veleiro passou muito perto da margem, no convés um grupo de gente vestida de forma desportiva, mulheres em bikini sentadas em torno de um frappé com champagne. Kalumba espremeu a última gota de vinho do tetrapak para a língua estendida.
Manecas coçava a cabeça.
— Mas oh Gonçalo... o que é que isso quer dizer para nós? Não sou eu que quero saber,são eles.
— Pois ‘eles’… Então diz-lhes que o turismo é uma actividade essencial à economia portuguesa, especialmente desta zona aqui, casas de fado, estação de comboios internacional, pensões, cais de desembarque de paquetes, restaurantes e discotecas chiques, esplanadas catitas... Sem o turismo isto volta a ser o quê? Um cais de estivadores como dantes?
— Mas os turistas Cala-te! Os Turistas não nos dão assim muito Cala-te! Dinheiro, eles não sabem o que são arrumadores e ficam a olhar para nós sem perceber o que queremos. Já ouvi! Espera, deixa-me falar! Além disso são carros alugados.
— Bem observado Manecas, bem observado. Mas o problema não são as moedinhas que não se ganha. O problema é o desleixo percebes? Já tiveste casa?
— Já. E família. Tinha uma mulher e dois filhos... lembro-me que…
— Pois e recebias visitas?
— Sim! Aos domingos vinha sempre o meu irmão e...
— E quando te vinham visitar, tinhas a casa de pantanas? Com tudo espalhado pelo chão, sujidade, jornais velhos, vómitos? Urinavas no canto da tua sala?
— Não Tommy! Porra, achas que eu era javardo ou quê? Eu era um senhor! Digam-lhe!
— Pois mas olha lá aqui para Santa Apolónia pá. Achas que isto é uma sala que se apresente às visitas?
— Epá mas isso isso é diferente...
— Não é diferente coisa nenhuma. Tu e as tuas personalidades múltiplas, eu em menor grau e aqui o Kalumba em maior grau, somos uma vergonha, uma sujidade aqui para o pessoal que chega de barco e de comboio e que vai aí para ver o fado e o monumento. Somos maus para o turismo. Quanto mais turismo houver maior será o esforço de nos proporcionar roupa lavada, algumas casas de banho, cobertores... Percebes? Maketing Manecas, não subestimes o poder do marketing! — Gonçalo pousou o jornal ao seu lado e levantava cada vez mais o tom de voz, levantou-se e agora não falava só para Manecas e o aparelho auditivo de Kalumba para todo uma dezena de sem-abrigo que ali lagartavam ao Sol.
— Não subestimem o poder do marketing! Por exemplo, estão a ver aqui o senhor Luz aqui com a sua bengalinha de cego? Sabem porque é que o senhor Luz faz três vezes mais dinheiro que o Pimpão que até é mais novo e é mesmo cego? Claro que é mais produtivo porque não é cego, sai e entra das carruagens com mais rapidez, mas não é só por isso! É por marketing puro e simples, o Senhor Luz está sempre impecavelmente vestido e barbeado, e pede com aquela voz alegre quase autoritária, “tenhabondade mauxiliar porfavô” dando bengaladas carinhosas nas canelas das pessoas que tentam fugir, tudo com um ritmo certo e seguro. Quando recebe o dinheiro diz “obrigado saúde e sorte” e as pessoas não se sentem oprimidas pela sua presença! Aqui o Pimpão não! O Pimpão tem um tom de voz lamuriento e monocórdico, parece que vai morrer a qualquer instante! Ainda por cima insulta as pessoas quando não lhe dão nada!
— Foda-se mas eu sou mesmo cego. — justificou-se Pimpão ajeitando os óculos escuros.
— E depois?
— E depois vai pró caralho. Se fosses cego não vinhas praqui com teorias do arco da velha.
— Para as pessoas é igual! Não sei se sofre mais o Senhor Luz a ir de propósito contra as coisas para se fingir cego 24 horas por dia se tu que não tens outra escolha e já estás habituado. O problema é que tu fazes as pessoas sentirem-se culpadas e a melhor sensação que as pessoas vão ter ao dar-te dinheiro é de pelo menos não se sentirem tão culpadas. “ajudem-me por favor... ajudem o ceguinho...” foda-se que merda é essa Pimpão! Isso nem um copyrighter português se lembrava caralho! Mas não és só tu! '
De súbito o chão começou a tremer. Gonçalo calou-se e ficou imobilizado com o dedo no ar a meio de uma frase. Tudo desabou.
***
foi um cpítulo do meu 1º romance inacabadíssimo, daí o final aparentemente "inusitado". Na história fazia sentido. Lá voltarei depois de acabar este em que trabalho agora e que é a minha 3ª, 4ª ou 5ª tentativa para acabar alguma coisa. Este e muitos outros capítulos, dezenas de páginas numa versão mais ou menos acabada (há erros!), acabaram por ficar de fora "do todo", tinham personagens interessantes mas que me complicavam a história para lá do razoável. Este Gonçalo "Tommy" seria uma espécie de Oliveira da Figueira do Tintim, apareceria em todos os locais do mundo, onde menos esperado, sempre muitíssimo bem adaptado à economia global. Conheci jovens consultores que poderiam trabalhar na sibéria alimentados a óleo de foca e peixe cru ou no deserto, a tâmaras e chá ou em Walstreet a hamburguers. Admiro pessoas assim. Talvez o venha a reabilitar. É uma tragédia para mim aquilo que se tem de deitar fora, quase 10 vezes mais do que o que fica. Enfim, tentei minimizar essa tragédia fazendo copy paste deste bocadinho, deixo o Gonçalo ter um enterro digno e chamemos-lhe "um conto".


Links to this post:
Criar uma hiperligação
<< Home